“No começo do negócio não há glamour algum, mas não espero mais os finais de semana para ser feliz. A vida passou a ser muito mais significativa todos os dias”. A frase é da engenheira Luciana Rangel, de 33 anos, que em março deste ano deixou um cargo de gerência na Natura (após nove anos de casa) para se aventurar como empreendedora.

Ela criou a Comadres.net, uma loja online de aluguel de  produtos para mães e bebês, como carrinhos de passeio e bombas de tirar leite. “Os produtos para gestantes, mães e bebês são muito caros e você os usa por pouquíssimo tempo. Acho que faz mais sentido você alugar do que comprar tudo”, justifica ela, que tem uma filha de um ano. Hoje, o negócio ainda é bem pequeno e os alugueis estão restritos à cidade de São Paulo, mas o objetivo é ampliar os serviços em 2016, oferecendo uma espécie de assinatura de roupas para gestantes e aluguéis em outras cidades brasileiras.

Meus pais são concursados públicos e o sonho deles era me ver numa carreira bem estável

Luciana conta que a vontade de empreender começou há muito tempo, ainda na graduação, quando cursava engenharia de produção na Universidade de São Paulo (USP). Naquela época, no entanto, diz que não teve muito incentivo: “A Poli não tinha essa pegada empreendedora, os professores falavam muito de carreira em banco e indústria”, diz. Na família e entre os amigos, ela também não tinha muitos exemplos que a motivassem a abrir o próprio negócio, pelo contrário: “Meus pais são concursados públicos e o sonho deles era me ver numa carreira bem estável. Até hoje minha mãe me manda emails de concursos públicos, mesmo eu dizendo que não tem nada a ver comigo”, conta, aos risos.

E a vida seguiu por anos longe do empreendedorismo. Ela passou pela Unilever e ingressou na Natura, onde chegou à posição de gerente de novos negócios. Nesse cargo, pôde novamente ter o gostinho do que era empreender. “Era uma área da empresa em que tínhamos bastante liberdade de criação e certa flexibilidade, podíamos testar e, se não dava certo, tudo bem. Eu empreendia, mas com o dinheiro dos outros, o que era bem mais fácil”, brinca.

Por que, então, procurar pelo mais “difícil” e num momento tão adverso?

Luciana conta que a maternidade foi a precursora da mudança. Ao retornar à organização após o nascimento de sua filha Liz, percebeu que o antigo estilo de trabalho, com jornadas de até 12h e viagens constantes, não seria mais possível – e nem era desejado. Mesmo com todo o apoio que recebia, como berçário dentro da empresa, percebeu que a vida não estava “mais encaixando”.

“Com a maternidade, as prioridades se invertem. Eu, por exemplo, queria muito continuar amamentando, mas mesmo o berçário estando próximo, eu não tinha disponibilidade de sair sempre para fazer isso. Era muita correria”, diz. “De todas as mães, era uma das únicas com um bebê com mais de um ano que ainda mamava no peito”.

A questão da amamentação foi apenas uma dentre várias outras que a fizeram repensar sua carreira.  A área em que gerenciava passou por reestruturações e ela estava claramente desanimada, “empurrando com a barriga”. “O plano era ficar até minha filha completar 3 anos, que é quando acaba o benefício do berçário dentro da empresa. Era uma decisão racional, mas não era genuína e não sou o tipo de pessoa de ficar só ‘fazendo a roda girar'”, explica. Seu chefe, percebendo a situação, a chamou para uma conversa, perguntando se ela gostaria de entrar num plano de demissão que, além dos direitos trabalhistas obrigatórios, incluía outros bônus e vantagens. Ela achou que era um sinal para ir atrás de seu sonho e topou.

Nunca achei que fosse trabalhar menos sendo empreendedora. A carga horária pode ser até mais puxada, mas você faz seus horários e consegue ter flexibilidade

A ideia da Comadres.net – Após a demissão, ela passou dois meses mergulhada no mundo do empreendedorismo, frequentando eventos, feiras, fazendo cursos e, principalmente, conhecendo outras empresárias. Ela já sabia que queria fazer algo para ajudar as mulheres e, se possível, as mães.

Após um curso de empreendedorismo para mães ministrado pela Impulso Beta, o projeto ganhou corpo e surgiu a Comadres.net. Quando questionada sobre o que é tão atraente em ter o próprio negócio, ela não titubeia: a  flexibilidade. “Nunca achei que fosse trabalhar menos sendo empreendedora. A carga horária pode ser até mais puxada, mas você faz seus horários e consegue ter flexibilidade. Se a minha filha ficar doente e eu precisar me dedicar a ela, por exemplo, eu consigo e compenso no trabalho depois”, explica.

Mas como empreender “desempregada” e na crise?

Luciana conta que fez um minucioso planejamento financeiro para não cometer nenhuma loucura. Com o dinheiro da rescisão (FGTS e bônus), estimou quanto tempo conseguiria trabalhar sem ganhar e sem prejudicar o orçamento doméstico, chegando ao número de dois anos.  Com o marido, avaliou o patrimônio da família e quanto poderiam investir de dinheiro próprio no negócio. “Somos bem econômicos e organizados. Fizemos, há algum tempo, um planejamento financeiro de quanto queremos ter de dinheiro e de patrimônio aos 35 anos, aos 40, 50 e 60”, explica.

“Fomos verificar e a meta financeira dos 35 anos já tinha sido ultrapassada, mesmo eu estando com 33 anos. Estamos quase perto da meta dos 40, então, temos uma reserva que podemos investir na empresa e não irá nos atrapalhar no planejamento. Se esse dinheiro for perdido, o que vamos trabalhar para que não aconteça, teremos tempo de recuperar”, explica, ressaltando que tudo isso está detalhado em diversas planilhas.

Para as mulheres e mães que também querem empreender, a orientação de Luciana é planejar, mas também “desapegar”. “Percebi que o que me prendia no mundo corporativo era, além do dinheiro em si, o berçário, a previdência privada, o convênio…Essas amarras que nos dão a sensação de segurança. Mas essa segurança não pode te paralisar. Se você se planejar, dá para também ter isso tudo sendo empreendedora”, considera.