Eu estava às vésperas de completar 30 anos e haviam se passado oito meses desde que eu abrira mão de carteira assinada para dar início à jornada de fundar meu negócio. Foi quando chegou a notícia: eu já estava grávida de dois meses do Gabriel. Isso aconteceu exatamente um ano atrás.

Os últimos tempos têm sido intensos e transformadores. Mudei certas crenças e descobri pontos cegos. Reuni abaixo meus principais aprendizados que podem também fazer algum sentido para você que se identifica com a ideia de conciliar seus papéis de mãe e profissional, quiçá cogitando inclusive montar uma empresa em busca das tais autonomia e flexibilidade.

1)      A maternidade pode ser uma mola impulsora dos nossos negócios

Assim que descobri a gravidez eu marquei uma reunião com os dois conselheiros da ImpulsoBeta para discutir como poderia me preparar para o que vinha pela frente. À época, trabalhava com freelas e parceiros e não tinha retirada garantida. Definimos que eu precisava de um sócio ou sócia urgentemente e devia acelerar algumas etapas de desenvolvimento de produto e prospecção de clientes.

E assim foram os meses seguintes até a chegada do Biel: entrevistas com 11 potenciais sócios para chegar à minha atual parceira Dani Botaro, a criação de cursos online e uma correria para fazer o máximo de reuniões possíveis com empresas interessadas em diversidade de gênero.

Gabriel tem 5 meses. Esse ano a ImpulsoBeta começou a atender com seus programas de diversidade de gênero e liderança feminina empresas grandes como o Banco BNP Paribas, a Bloomberg, o Google, o Deutsche Bank, a Deloitte, o Hospital Samaritano e fez projetos interessantes com várias outras organizações. Dani e eu temos pró-labore garantido. Precisamos dar um novo salto e já começando os planos de crescimento para 2017.

O Biel me ajudou a tomar a coragem necessária para trazer uma sócia. E me deu a motivação para tomar alguns riscos e acelerar alguns passos.

2)     A flexibilidade existe: saindo da maternidade você já pode conciliar seus dois papéis

Pois é, voltei a trabalhar meio período quando meu filho fez um mês. Na verdade, na primeira semana em casa já precisei fazer uma proposta para um grande cliente. Com 15 dias rolou a primeira reunião por skype com outro cliente para quem eu daria um treinamento de 8 horas no mês seguinte. Tudo isso ao mesmo tempo em que não dormia duas horas seguidas, o bico do meu peito se desfazia nos esforços iniciais da amamentação e segurava o choro para estar forte para um bebê que tinha cólicas e crises de refluxo.

Foi assim porque era necessário. Minha presença nesses momentos decisivos para a empresa não era muito questão de escolha. O sucesso dela naquele momento dependia do meu envolvimento. E eu tinha colocado muito em jogo para aceitar a possibilidade de as coisas irem para o vinagre.

Acredito que serei feliz quando puder seguir acompanhando de perto o crescimento do meu filho com a flexibilidade de trabalhar em casa alguns dias por semana e ser dona da minha agenda. Mas nesse momento sinto uma pontada de inveja das amigas CLT que conseguem ler livros sobre como ser boa mãe. Felizmente posso ligar para elas e copiar algumas coisas que aprenderam.

3)     Você precisa de uma boa rede de apoio!

Tudo isso só foi possível por alguns fatores:

·        No começo eu tinha um marido de férias em casa, que participava da rotina com o bebê;

·        Eu estava na casa dos meus pais enquanto minha casa estava em reforma, com ajuda 24 horas da minha mãe nas primeiras semanas e uma dose relevante de ajuda nas semanas seguintes. Sem contar um colo ou outro do meu pai quando eu precisava tomar um banho, ir ao banheiro…essas coisas que antes pareciam tão simples;

·        Eu ainda tinha ajuda da minha sogra dia sim, dia não, para cuidar do Biel quando fui retomando a rotina de trabalho;

·        As responsabilidades da casa? Zero preocupação em cuidar de qualquer coisa ligada à nossa sobrevivência;

·        Além de poder pagar consultas particulares de pediatra, ainda tinha uma amiga-prima pediatra tirando mil dúvidas por whatsapp todos os dias e fazendo visitas noturnas para dar uma ajuda quando as coisas ficavam difíceis;

·        Sem contar as tantas amigas mães recentes compartilhando como superaram os perrengues.

Agora que estou de volta à minha casa, temos apoio de uma profissional e ainda contamos com ajuda dos avós. Eu sou grata por tanto apoio. Sempre achei que quando tivesse filhos não ia querer “esse negócio de família dando pitaco”. Eu estava errada. Redondamente errada. Ando até pensando em morar numa vila com todas as pessoas queridas por perto!

4)     O buraco é mais embaixo para a maioria das mulheres

Estava eu lá me sentido a mais valente das guerreiras: contei à manicure sobre como estava feliz de poder voltar a fazer as unhas, pois minha rotina atribulada com um bebê pequeno não permitia.Ela me contou sobre sua culpa em deixar a filha de 15 dias com a vizinha porque tinha que trabalhar e não tinha parentes próximos. Ouvir isso me ajudou a enxergar um pouco melhor a realidade da maior parte das mulheres.

Ela me contou sobre sua culpa em deixar a filha de 15 dias com a vizinha porque tinha que trabalhar e não tinha parentes próximos.

Seu depoimento me fez ir atrás de alguns dados do IBGE e descobrir que:

·        Mais de 20 milhões de brasileiras são mães solteiras, o que pode significar para muitas uma situação financeira mais complicada e uma dose de preconceito para somar aos desafios;

·        As mulheres são mais da metade dos cerca de 50 milhões de trabalhadores informais do Brasil. Elas não têm CLT e precisam da grana de todo mês para seu sustento e de suas famílias. São as feirantes, manicures, cabelereiras, vendedoras ambulantes. Muitas levam seus bebês de poucos dias ao trabalho para conseguirem amamentar ou porque não têm mesmo com quem deixar;

·        Apenas um terço dos brasileiros têm plano de saúde (acho que menos ainda têm amigos médicos como eu). Isso deve ter o ver com o fato de que a renda média do brasileiro foi de R$ 1.113 em 2015.

Pois bem, a maternidade tem me ensinado muito. Hoje acredito que posso realizar ainda mais do que antes, mas que isso só é possível com todo o apoio de minha rede pessoal. E reconheço que infelizmente a maior parte das mulheres tem uma realidade bem mais complexa que a minha. Gratidão e empatia são minhas novas palavras!