Nas redes sociais não faltam textos de pessoas listando razões de porque é melhor ser mãe de menina ou de menino. Nas rodinhas de conversa com colegas o tema também é recorrente. Trabalhando com o tema do empoderamento das mulheres, meu posicionamento na ImpulsoBeta é sempre a quebra do paradigma de que existem comportamentos extremamente arraigados ao gênero. Mas nesse texto quero falar de questões que realmente dizem respeito às meninas e todo pai e mãe deveria saber, pensando no bem-estar e no futuro de suas filhas.

O mundo tem sido muito pouco gentil com as garotas. O estudo recém-publicado Every Last Girl, da ONG internacional Save The Children, traz alguns dados alarmantes:

·        62 milhões de meninas no mundo ainda não têm acesso à educação. Em muitas regiões, se for necessário a família priorizar o investimento de seus recursos, quem estuda são os meninos. O filme Girl Rising, da ONG de mesmo nome, mostra essa realidade na história de meninas de oito países (você pode assistir de graça no NETFLIX);

·        Mais de 700 milhões de meninas no mundo casam-se com menos de 18 anos;

·        2,5 milhões de meninas com menos de 16 anos dão à luz todos os anos. Cerca de 70 mil delas morrem em complicações da gravidez e do parto;

·        E as políticas públicas para mudar essa situação? Não costumam ser prioridade e isso se explica, em boa parte, pelo fato de que apenas 23% dos parlamentares do mundo são mulheres.

A mesma pesquisa produziu um ranking de qualidade de vida para meninas em 140 países considerando questões que comprometem o desenvolvimento e independência das meninas, como casamento na infância e adolescência, gravidez precoce, mortalidade materna, representatividade feminina no parlamento e acesso à educação básica. O Brasil? Ficou na posição 102, atrás de todos os países da América Latina. Atrás também da Índia, do Irã, do Casaquistão, do Camboja e da Síria.

Mas essas situações parecem muito distantes da sua realidade, certo? Talvez você possa fazer uma doação para uma ONG para ajudar essas pobres garotas, mas a sua filha tem futuro garantido uma vez que você já fez a poupança da faculdade, tem plano de saúde e condições para oferecer conforto e boas orientações. Sinto lhe informar, mas sua filha criada numa família de classe média, urbana e instruída também sofre algumas pequenas agressões que irão comprometer sua capacidade de ser uma mulher adulta independente, confiante e plenamente realizada.

Aqui vão alguns dados para você refeletir:

·        No Brasi, 81,4% das meninas arruma a cama conta 11,6% dos meninos. E 76,8% lavam a louça versus 12,5% dos meninos. Quem disse isso foi o IPEA numa pesquisa de 2014. Essa divisão de tarefas ensina desde cedo às nossas filhas seu papel no mundo. Pense no impacto disso da próxima vez que pedir ajuda à sua filha com os afazeres da casa enquanto deixa seu filho jogar videogame;

·        Desde muito cedo aprendemos que agir “como menina” é sinônimo de atitudes que indicam fofura e gentileza…quando não fraqueza, insegurança e futilidade. Isso gera uma lacuna de autoestima que as mulheres carregam por toda sua vida. Essa campanha da marca Always mostra como somos nós como sociedade que inserimos essa fragilidade na cabeça de nossas meninas;

·        Quando um garoto é assertivo, é chamado de líder. Quando uma garota age da mesma forma, é chamada de mandona (na minha infância ganhávamos o apelido de Mônica, a personagem do gibi). As palavras passam a mensagem: não se posicione, fique na sua, seja sempre dócil. No período do Ensino Fundamental II há pesquisas que já indicam queda no interesse das garotas em assumir papéis de liderança em comparação com seus colegas garotos – uma tendência que apenas se acentua ao longo da vida adulta. Quem fala muito sobre isso é a ONG americana Ban Bossy.

Como vimos, desde muito cedo nossas meninas encaram esse cenário de pequenas e grandes agressões relacionadas diretamente ao seu gênero. Isso explica porque na vida adulta as mulheres se declaram mais inseguras, trabalham semanalmente 23 horas em tarefas do lar versus 10 horas dos homens (dado também dos IPEA) e chegam a menos de 5% das posições de presidências de empresas do Brasil. Temos uma grande responsabilidade com nossas filhas, netas, sobrinhas, afilhadas, alunas, amiguinhas dos nossos filhos. Na hora da próxima hashtag #amosermãe/pai/tia/oquefor/demenina acompanhada de uma foto cor de rosa no facebook, lembrem-se que é da sua ajuda para mudar essa realidade que sua garota precisa.