A falta de estímulos e/ou oportunidades para meninas e o tratamento diferenciado desde a primeira infância são fatores que determinam o menor número de mulheres nas chamadas áreas  STEM – um acrônimo para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática.
Esta diferenciação também é um forte indicativo do porquê não termos um numero significativo de mulheres em cargos de liderança em grandes empresas.

Quando era pequena, Patricia Fisch, Mestra em Tecnologia, recorda de sua época de férias escolares, quando precisava auxiliar a mãe nas tarefas domésticas. Acordava cedo, ajudava a fazer café, arrumar quarto, varrer a casa. Seus irmãos podiam dormir até mais tarde, levantavam com o café na mesa e nunca lavaram um prato. Corriam para a rua para jogar bola com os amigos. Com certeza ela deve compartilhar esta realidade com muitas mulheres que hoje estão lendo este texto.

De maneira geral o tratamento diferenciado inicia em casa, com a observação das atividades que os membros da família exercem em seu dia-a-dia, com os brinquedos ofertados às crianças e com a reificação de “boas maneiras” e regras de comportamento social que distinguem os gêneros.

Quantas vezes não ouvimos a frase “isso é coisa de menino/menina?”

Esta diferenciação no tratamento insere as meninas numa categoria de menor interesse por atividades

Caixa de jogos de montagem de robôs. O que há de errado na imagem?

Caixa de jogos de montagem de robôs. O que há de errado na imagem?

que exijam habilidades matemáticas e de liderança. Os “brinquedos de meninos” são coloridos, podem ser montados, desmontados, quebrados, reorganizados. Os jogos exigem força, uso de motricidade corporal e estimulam a aventura e o fazer. Já os brinquedos de meninas são em geral cor de rosa e remetem a brincadeiras que imitam a mãe, arrumação da casa, família e bebês, ou seja, estimulam mais o lado afetivo.O mercado de brinquedos e a mídia são também responsáveis por manterem as meninas numa “redonda cor de rosa” ao criarem brinquedos exclusivos para meninos e meninas:

Podemos imaginar que, com a entrada da criança na escola esta situação melhore, não é mesmo? Afinal o currículo pedagógico das escolas é o mesmo tanto para meninos quanto para meninas, mas …

 

 

O ensino de matemática e o preconceito

Professores superestimam as capacidades dos meninos e subestimam a capacidade das meninas em resolver questões de matemática e lógica, conforme uma pesquisa liberada em janeiro de 2015 pelo National Bureau of Economic Research. Para acessar a pesquisa completa acessehttp://www.nber.org/papers/w20909.

A pesquisa demonstrou através de um experimento que, quando professores corrigem provas de matemática de meninos, eles atribuem notas mais altas a eles do que para as meninas, mas quando corrigem provas sem saber o sexo do respondente, as notas mais altas sempre são das meninas, evidenciando o grande preconceito que ainda paira sobre o ensino de matemática para meninas e reafirmando o que todas nós já sabemos: meninas são tão boas quanto meninos em matemática e lógica!

Exemplos como este são vistos diariamente na escola, em casa, nas brincadeiras, nos grupos de bate-papo e redes sociais. Esta discriminação é determinante para a formação da identidade das meninas, que passam a não se compreenderem boas o suficiente para competir com meninos, e mais adiante, as fazem desistir de carreiras como TI e engenharias.

Mas, a grande pergunta é: Tem como mudar esta realidade?

Tentando desconstruir questões de gênero no ensino de exatas

Para modificar esta realidade, devemos primeiramente construir um ambiente igualitário para meninos e meninas em casa. Oferecer brinquedos e incentivar brincadeiras sem discriminar o que é “de menino” e “de menina” é um excelente começo!

Na questão educacional, a inserção de atividades lúdicas e jogos voltados para o empoderamento das meninas e a desconstrução do conceito de que elas não são boas em matemática é urgente.

Visando auxiliar tanto a escola quanto os pais na tarefa de inspirar crianças e, principalmente as meninas, nasceu “As aventuras da Meg Margadinória no reino das formigas” que conta a história de uma florzinha com grandes dificuldades em compreender como a matemática funciona. Através de uma jornada do herói, Meg descobre os números e suas funções, as operações matemáticas e o grande desafio de analisar e resolver problemas. Ela possui uma mentora, que é uma grande matemática: a Rainha formiga Zemmer!

O circuito da Meg além da contação de histórias de forma bem didática, contém oficinas de jogos matemáticos, montagem de circuitos eletrônicos, construção de robôs tais como insetos de sucatas analógicos, tiaras com Leds e lanternas que trabalham com a sustentabilidade e criatividade estimulando meninas a criarem seus próprios projetos com a metodologia maker.

A personagem faz parte da Saga Pólen, o mapa secreto do Jardim Mágico, um storytelling fantásticocomposto de livros, jogos parapedagógicos virtuais e físicos, além de circuitos educacionais preparados especialmente para o ambiente escolar. O objetivo é desenvolver habilidades socioemocionais, multidisciplinares e consciência ambiental.

As aventuras da Meg foram preparadas principalmente para despertar o interesse pela matemática, fundamentos de programação e robótica básica de forma lúdica e prática através de um reino de fantasia pensando para esta faixa etária.

A primeira etapa do projeto consiste na contação de histórias e um jogo de tabuleiro, e está sendo validada em ambiente escolar público. Atualmente conta com 150 crianças envolvidas na temática e sendo preparadas para a segunda etapa onde a robótica básica é desenvolvida. Já a terceira etapa contempla iniciação a programação. Nossa ambição é ter 50% de vagas preenchidas pelas meninas.

Como encorajar meninas e maneiras de participar

As meninas também gostam de serem desafiadas e, para encorajar uma menina nunca use frases do tipo:

–  “você tem certeza?” “vc consegue?” “mas tu não acha que é coisa de menino?” “nunca vi menina fazendo isso…”

Jamais diga que um menino faz melhor, ou que manter a roupa dela limpa é mais importante do que brincar.

Preconceito se carrega por toda a vida!

Empodere suas meninas <3

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Este texto faz parte de uma série de artigos publicados exclusivamente pela ImpulsoBeta com a colaboração de:

Tatiana BarrosTatiana Barros – é formada em design gráfico, já atuou no segmento de licenciamento de produtos infantis. Hoje é a idealizadora, autora e diretora de criação da Saga Pólen, além de atuar como técnica de laboratório digital, ministra e faz curadoria de cursos educacionais voltados à fabricação digital no Fablab Livre de São Paulo na unidade Penha

 

Patrícia Fisch

Patrícia Fisch – Patricia é inegavelmente geek. Professora de segurança em redes, programação, robótica, inteligência artificial e programação, também integra a equipe da Saga Pólen no desenvolvimento dos protótipos de robótica educacional.