Conheça a histórias das administradoras que deixaram cargos de gerência para fundar uma startup. "Tivemos que cortar custos e mudar totalmente nosso estilo de vida"

Mariana Dias, de 28 anos, e Bruna da Silva, de 30, tinham o emprego que muitos poderiam considerar “dos sonhos”: elas ocupavam cargos de gerência na Ambev (que está na lista das 10 empresas mais desejadas pelos jovens). Além dos salários já atraentes, ao final do ano ganhavam bônus polpudos por metas atingidas.

“Quando ela falou que iria pedir demissão da Ambev, não acreditei e pensei: ‘Vou fazer de tudo para fazê-la desistir dessa ideia'”

Mas elas queriam mais, e não estamos falando de dinheiro. Elas queriam mais propósito na carreira e, por isso, decidiram empreender fundando a Gupy, uma startup de seleção e recrutamento. Em janeiro deste ano, pediram demissão da Ambev para se dedicarem integralmente à empresa.

A startup utiliza testes de mapeamento de personalidade para sugerir ao jovem quais são as empresas que mais combinam com ele, ajudando-o a tomar decisões de carreira mais assertivas.

Mariana conta que a ideia do negócio surgiu em 6 de agosto de 2014 (sim, ela lembra exatamente a data!), quando estava em um voo a trabalho entre São Paulo e Salvador. “Estava lendo um livro que falava sobre enxergar em problemas grandes oportunidade e tive a ideia que gerou a Gupy”, diz. “Nesse mesmo dia, avisei minha família que sairia da empresa em que estava para abrir a minha startup”, completa.

Se a decisão de empreender foi tomada em tempo recorde, o mesmo não se pode dizer da demissão em si, que foi planejada durante cinco meses. O primeiro passo foi convencer a amiga Bruna a embarcar no projeto com ela. “Quando ela falou que iria pedir demissão da Ambev não acreditei e pensei: ‘Vou fazer de tudo para fazê-la desistir dessa ideia’. Mas ela continuou e disse: ‘Você é única pessoa em que confio para me ajudar a realizar isso’. Aí, eu paralisei”, conta Bruna, aos risos.

Cheguei à conclusão de que, se quisesse empreender, teria que cortar custos e mudar meu estilo de vida

Entre o convite para a sociedade e o “sim” de Bruna à Mariana foram dois meses de estudo e planejamento: “Li vários livros de empreendedorismo, fiz alguns cursos, conversei com alguns amigos empreendedores e fiz muitas, mas muitas contas…”, diz Bruna. Essas contas incluíram o detalhamento de todas as dívidas que ela já havia assumido, possíveis novos custos que surgiriam e desenho de diferentes cenários, que incluíam a possibilidade de só começar a ganhar dinheiro com a empresa, de fato, após três anos. “Depois de todas essas contas, cheguei à conclusão de que, se quisesse empreender, teria que cortar custos e mudar meu estilo de vida”, explica.

E assim ela fez:  vendeu o carro, mudou do Rio de Janeiro para São Paulo e começou a morar no apartamento-escritório da amiga-sócia. “Antes, eu nem perguntava quanto custavam as coisas, comprava o que não precisava e muitas vezes nem usava o que tinha comprado. Hoje, cortei compras impulsivas e negocio tudo”, diz.

As duas se dedicaram part-time (leia-se, durante as madrugadas) à empresa por alguns meses e, em janeiro deste ano, pediram demissão. A decisão – vista como loucura por parte da família e amigos – foi bem pensada: “Colocamos em uma planilha todos os nossos gastos para entender a fundo se conseguiríamos ficar até 3 anos sem ganhar nada. Essa é uma estimativa muito conservadora,  mas dada às incertezas aderentes ao empreendedorismo, foi o tempo que julgamos o mais sensato para tomarmos risco de forma mais embasada”, explica Mariana, que também vendeu o carro, dispensou o personal trainer e reduziu as saídas semanais.

Colocamos em uma planilha todos os nossos gastos para entender a fundo se conseguiríamos ficar até 3 anos sem ganhar nada

Ambas destacam que adoravam a antiga empresa, mas que fundar a startup era uma decisão conectada a um “propósito maior”. Hoje, ambas trabalham mais do que antes e para ganhar menos (ou, por enquanto, nada), mas ainda acham que vale a pena: “Temos paixão pelo nosso negócio e queremos melhorá-lo a cada dia, entregando um produto fantástico para impactar positivamente jovens e empresas”, diz Mariana.

Mas, quando questionadas se recomendam às pessoas empreenderem, as duas respondem juntas que “depende”. “Empreender hoje está na moda e, muitas vezes, é visto como sinônimo de flexibilidade, qualidade de vida, sucesso e enriquecimento rápido. Isso é um grande problema porque nem sempre as coisas saem conforme o planejado”, diz Bruna, e a sócia-amiga prontamente completa: “Para empreender, é preciso realmente ter perfil, as pessoas certas ao seu lado e estar preparada para errar muitas vezes e receber diversos ‘nãos'”.